A Verdade por Trás da Sinistralidade: Por que os Números não Contam a História Toda
No mundo da saúde suplementar, existe uma regra não escrita: quando a sinistralidade sobe, a reação precisa ser imediata. Gestores de RH, corretoras e operadoras debruçam-se sobre planilhas e a conclusão, para muitos, parece óbvia: "Precisamos de um programa de gestão de crônicos", "É hora de implementar uma APS (Atenção Primária à Saúde)" ou "Vamos direcionar o atendimento para clínicas parceiras".
Essas ações são válidas e, muitas vezes, necessárias. No entanto, existe um perigo latente em olhar para os números como se fossem a verdade absoluta. Os números são efeitos, não causas. E quando ignoramos a camada de comportamento que sustenta esses dados, corremos o risco de aplicar o remédio certo para a doença errada.
A Ilusão da Sinistralidade Clínica
Muitas vezes, a frieza de um gráfico ascendente de utilização é interpretada puramente como um fenômeno de saúde. A discussão gira em torno de sinistros, procedimentos e custos por beneficiário. Mas o que acontece quando o aumento súbito de exames, consultas e cirurgias eletivas não tem origem em uma mudança no perfil epidemiológico da população?
É aqui que entra a visão comportamental do negócio.
O Fenômeno da "Janela de Oportunidade"
Imagine o seguinte cenário: uma empresa passa por um momento de incerteza. Rumores de reestruturação circulam pelos corredores e a insegurança sobre a manutenção dos empregos se torna palpável. Qual é o comportamento reflexo de boa parte dos colaboradores?
- "Vou fazer aquele check-up que estou adiando há dois anos."
- "É melhor eu agendar aquela cirurgia eletiva agora, enquanto ainda tenho o plano."
- "Vou levar as crianças ao dentista e renovar todos os óculos da família."
O resultado? Um pico de sinistralidade que, nos relatórios mensais, aparecerá como uma "falha na gestão de prevenção" ou um "descontrole de custos". A tendência tradicional será sugerir programas de atendimento em clínicas ou APS. Todavia, nenhuma dessas ações resolverá o problema, pois a motivação não foi clínica, mas sim comportamental e ligada à insegurança profissional.
Onde a Corretora Tradicional não Alcança
A maioria das corretoras e operadoras faz uma leitura técnica dos dados. Elas são excelentes em processar contas, mas muitas vezes falham em ler o cenário humano. Esse é o ponto cego da gestão de benefícios no Brasil: a crença de que a saúde suplementar acontece em uma bolha, desconectada da cultura organizacional e da economia.
Para um conselheiro estratégico, o olhar precisa ser mais profundo. É necessário perguntar:
- O que está acontecendo no clima organizacional desta empresa?
- Esse aumento de custo coincide com anúncios de fusões ou trocas de liderança?
- Estamos diante de um problema de saúde ou de uma resposta psicológica à insegurança?
Por que os Números Nem Sempre Revelam a Verdade
Decisões baseadas apenas em dados frios podem gerar investimentos ineficazes. Implementar um programa de gestão de saúde é caro e consome energia da equipe. Se o motivo do aumento do uso foi uma "janela de oportunidade" antes de um possível desligamento, o programa terá baixa adesão e impacto quase nulo no custo final.
A verdadeira eficiência na saúde suplementar vem da capacidade de cruzar dados de saúde com visões comportamentais do negócio. É entender que o beneficiário não é apenas um "custo mensal", mas um indivíduo que reage ao ambiente onde vive e trabalha.
Conclusão: Busque o Olhar Estratégico
Se a sua empresa está enfrentando desafios com o custo do plano de saúde e as soluções de "prateleira" não parecem estar surtindo efeito, talvez o que falte seja esse olhar mais profundo.
Menos reatividade e mais análise comportamental. Menos foco no sinistro e mais foco no contexto. Quando entendemos que o número é apenas a ponta do iceberg, começamos a fazer gestão de verdade.
Quer entender o que a sinistralidade da sua empresa realmente está tentando dizer? No meu papel como conselheira estratégica, ajudo organizações a lerem as entrelinhas dos seus dados. Vamos conversar.