Estratégia

A Verdade por Trás da Sinistralidade: Por que os Números não Contam a História Toda

8 min de leitura
24 de dezembro de 2025

No mundo da saúde suplementar, existe uma regra não escrita: quando a sinistralidade sobe, a reação precisa ser imediata. Gestores de RH, corretoras e operadoras debruçam-se sobre planilhas e a conclusão, para muitos, parece óbvia: "Precisamos de um programa de gestão de crônicos", "É hora de implementar uma APS (Atenção Primária à Saúde)" ou "Vamos direcionar o atendimento para clínicas parceiras".

Essas ações são válidas e, muitas vezes, necessárias. No entanto, existe um perigo latente em olhar para os números como se fossem a verdade absoluta. Os números são efeitos, não causas. E quando ignoramos a camada de comportamento que sustenta esses dados, corremos o risco de aplicar o remédio certo para a doença errada.

A Ilusão da Sinistralidade Clínica

Muitas vezes, a frieza de um gráfico ascendente de utilização é interpretada puramente como um fenômeno de saúde. A discussão gira em torno de sinistros, procedimentos e custos por beneficiário. Mas o que acontece quando o aumento súbito de exames, consultas e cirurgias eletivas não tem origem em uma mudança no perfil epidemiológico da população?

É aqui que entra a visão comportamental do negócio.

O Fenômeno da "Janela de Oportunidade"

Imagine o seguinte cenário: uma empresa passa por um momento de incerteza. Rumores de reestruturação circulam pelos corredores e a insegurança sobre a manutenção dos empregos se torna palpável. Qual é o comportamento reflexo de boa parte dos colaboradores?

  • "Vou fazer aquele check-up que estou adiando há dois anos."
  • "É melhor eu agendar aquela cirurgia eletiva agora, enquanto ainda tenho o plano."
  • "Vou levar as crianças ao dentista e renovar todos os óculos da família."

O resultado? Um pico de sinistralidade que, nos relatórios mensais, aparecerá como uma "falha na gestão de prevenção" ou um "descontrole de custos". A tendência tradicional será sugerir programas de atendimento em clínicas ou APS. Todavia, nenhuma dessas ações resolverá o problema, pois a motivação não foi clínica, mas sim comportamental e ligada à insegurança profissional.

Onde a Corretora Tradicional não Alcança

A maioria das corretoras e operadoras faz uma leitura técnica dos dados. Elas são excelentes em processar contas, mas muitas vezes falham em ler o cenário humano. Esse é o ponto cego da gestão de benefícios no Brasil: a crença de que a saúde suplementar acontece em uma bolha, desconectada da cultura organizacional e da economia.

Para um conselheiro estratégico, o olhar precisa ser mais profundo. É necessário perguntar:

  1. O que está acontecendo no clima organizacional desta empresa?
  2. Esse aumento de custo coincide com anúncios de fusões ou trocas de liderança?
  3. Estamos diante de um problema de saúde ou de uma resposta psicológica à insegurança?

Por que os Números Nem Sempre Revelam a Verdade

Decisões baseadas apenas em dados frios podem gerar investimentos ineficazes. Implementar um programa de gestão de saúde é caro e consome energia da equipe. Se o motivo do aumento do uso foi uma "janela de oportunidade" antes de um possível desligamento, o programa terá baixa adesão e impacto quase nulo no custo final.

A verdadeira eficiência na saúde suplementar vem da capacidade de cruzar dados de saúde com visões comportamentais do negócio. É entender que o beneficiário não é apenas um "custo mensal", mas um indivíduo que reage ao ambiente onde vive e trabalha.

Conclusão: Busque o Olhar Estratégico

Se a sua empresa está enfrentando desafios com o custo do plano de saúde e as soluções de "prateleira" não parecem estar surtindo efeito, talvez o que falte seja esse olhar mais profundo.

Menos reatividade e mais análise comportamental. Menos foco no sinistro e mais foco no contexto. Quando entendemos que o número é apenas a ponta do iceberg, começamos a fazer gestão de verdade.


Quer entender o que a sinistralidade da sua empresa realmente está tentando dizer? No meu papel como conselheira estratégica, ajudo organizações a lerem as entrelinhas dos seus dados. Vamos conversar.

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SB

Sabrina Barros

Dentista e Executiva de Saúde Suplementar. Atua na intersecção entre regulação, tecnologia e cuidado humano para transformar a saúde no Brasil.